Mundo Raridade
Jiboia considerada uma das mais raras do mundo é encontrada em Juquiá, no interior de São Paulo
Fêmea adulta da jiboia-do-ribeira, espécie símbolo da conservação no Vale do Ribeira, foi resgatada viva e reforça a importância da região para pesquisas e preservação ambiental
19/01/2026 13h50
Por: Fagner Vieira Fonte: G1 Santos
Jiboia considerada uma das mais raras do mundo é encontrada em Juquiá, no interior de São Paulo /Foto: harisson/iNaturalist

Uma jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii), considerada pelo Instituto Butantan uma das espécies de serpentes mais raras do mundo, foi encontrada viva no município de Juquiá, no interior de São Paulo, reforçando o papel estratégico do Vale do Ribeira na conservação da biodiversidade brasileira. O animal, uma fêmea adulta com cerca de 1,70 metro, foi resgatado e está sob os cuidados do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR), permanecendo em quarentena no Instituto Rio Itariri (IRI), em Pedro de Toledo, antes de ser reintroduzido à natureza.

Segundo a pesquisadora Daniela Gennari, do Museu de Zoologia da USP e integrante do PJR, a serpente deverá ser transferida nos próximos dias para um viveiro semi-intensivo, preparado para simular condições naturais como chuva, umidade e variações de temperatura. O espaço está sendo ambientado pelo especialista em bem-estar animal Lucas do Valle, garantindo um processo de adaptação gradual e seguro.

A jiboia permanecerá nesse ambiente por alguns meses e também passará por avaliações clínicas, incluindo a possibilidade de implantação de um microchip, procedimento que depende de exames detalhados e cirurgia em clínica especializada. Por esse motivo, ainda não há uma data definida para a soltura definitiva do animal na natureza.

Este é o primeiro exemplar vivo da jiboia-do-ribeira registrado em Juquiá, fato que desperta o interesse de pesquisadores. A equipe do projeto busca agora identificar se o animal pertence a uma nova população da espécie no Vale do Ribeira, já que, até então, apenas três indivíduos haviam sido monitorados na região, nos municípios de Sete Barras e Eldorado.

“Temos muitas perguntas em aberto sobre essa espécie, e nosso trabalho envolve diretamente a comunidade do Vale do Ribeira para ajudar a responder essas questões”, explicou Daniela Gennari, destacando a importância da participação popular na conservação ambiental.

Como forma de aproximar ainda mais a população local, o Projeto Jiboia do Ribeira deve lançar, nos próximos dias, uma votação nas redes sociais para escolher o nome da jiboia, iniciativa que busca ampliar o engajamento da comunidade com a preservação da espécie.

O resgate só foi possível graças a um histórico recente de ações de educação ambiental na cidade. De acordo com o coordenador do PJR, Bruno Rocha, após o avistamento de outro exemplar em abril de 2025 — que não pôde ser capturado —, moradores passaram a reconhecer melhor a espécie. Assim, quando a jiboia foi vista em 22 de novembro, o alerta foi feito rapidamente.

A serpente foi localizada em uma estrada rural por funcionários do vereador Thiago Barbosa (PP), que acionaram Rafael Guimarães, da empresa PreserValle, responsável por apoiar o resgate e o encaminhamento do animal ao PJR.

O Projeto Jiboia do Ribeira, que completa 10 anos de atuação em 2026, já monitorou e reintroduziu à natureza três exemplares da espécie: Esperança, Ribeiro e Dona Crô, esta última a primeira acompanhada diretamente em ambiente natural. Após mais de 60 anos sem registros, o reaparecimento da jiboia-do-ribeira ocorreu em 2017, em Sete Barras, no Vale do Ribeira, seguido de novos registros em 2020 e 2022.

Descrita oficialmente em 1953 pelo herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan, a espécie segue sendo pouco conhecida pela ciência. Cada novo registro é considerado fundamental para ampliar o conhecimento sobre a jiboia-do-ribeira e fortalecer as estratégias de conservação ambiental no Vale do Ribeira, uma das regiões mais ricas em biodiversidade do país.