Cotidiano Fraude
Falso médico é preso em Cananéia após erro grave em ultrassom
Suspeito foi descoberto depois de afirmar ter visto a vesícula de uma paciente que já havia retirado o órgão; caso acende alerta sobre fiscalização na saúde pública do Vale do Ribeira
13/01/2026 16h19 Atualizada há 5 meses
Por: Fagner Vieira Fonte: G1 Santos
Falso médico é preso em Cananéia após erro grave em ultrassom

Um homem de 28 anos foi preso em flagrante em Cananéia, no litoral sul de São Paulo, após se passar por médico e atender pacientes em uma unidade de saúde do município. A fraude veio à tona depois que ele afirmou ter visualizado a vesícula de uma paciente durante um exame de ultrassom, mesmo ela não tendo mais o órgão. O caso ocorreu na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Centro e mobilizou autoridades da área da saúde e da segurança pública no Vale do Ribeira.

O suspeito foi identificado como Wellington Augusto Mazini Silva, empresário, que utilizava o registro profissional (CRM) de um médico regularmente inscrito no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). A situação levantou suspeitas em diversos pacientes atendidos por ele, principalmente devido a erros evidentes nos diagnósticos e comentários incompatíveis com os históricos clínicos apresentados durante as consultas.

A descoberta ocorreu quando uma paciente, que já havia passado por cirurgia para retirada da vesícula, estranhou a afirmação feita pelo suposto médico de que o órgão estaria em “boas condições”. Diante da inconsistência, ela comunicou o fato ao diretor de Saúde do município, que acionou imediatamente a Polícia Militar (PM). Wellington foi preso na quarta-feira (7), ainda em Cananéia.

De acordo com informações da Polícia Civil, além do caso da paciente sem vesícula, outro atendimento chamou atenção: um homem em tratamento para gordura no fígado ouviu do falso médico que não apresentava qualquer alteração no órgão. Outros pacientes também relataram que os laudos entregues pareciam ser apenas reproduções padronizadas, descritas como documentos feitos em “copia e cola”, sem análise individualizada dos exames.

Prisão e investigação

Segundo o boletim de ocorrência, Wellington realizava exames de ultrassom utilizando equipamentos próprios e se apresentava como médico ao usar o CRM de um profissional que é sócio de uma clínica na capital paulista. Durante a abordagem policial, foram apreendidos carimbo de outro médico, blocos de receituários pertencentes a diferentes clínicas e um cadastro do Cremesp em nome de um terceiro profissional.

Em depoimento informal, o suspeito afirmou que receberia R$ 2 mil pelos serviços prestados na unidade de saúde. Ele foi autuado por exercício ilegal da medicina e falsidade ideológica, já que, além de se apresentar como outra pessoa, emitia laudos médicos com identidade falsa.

Após passar por audiência de custódia, a prisão em flagrante foi convertida em prisão preventiva. Wellington foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Registro, município que também integra a região do Vale do Ribeira.

O advogado Celino Barbosa de Souza Netto, responsável pela defesa de Wellington, informou que irá recorrer da decisão que manteve a prisão preventiva e afirmou que pretende provar a inocência do cliente ao longo do processo judicial.

Posicionamento da Prefeitura de Cananéia

Em nota oficial, a Prefeitura de Cananéia informou que o suspeito atuou na UBS por apenas um dia. Segundo a administração municipal, o médico verdadeiro foi contratado de forma regular pela empresa gestora do sistema municipal de saúde, com apresentação de toda a documentação exigida, incluindo CRM válido.

“Contudo, quem compareceu à unidade para prestar o serviço foi outra pessoa, que se fez passar pelo profissional, utilizando documentos falsos apresentados a servidores municipais e à autoridade policial”, informou a prefeitura.

A administração destacou que a fraude foi identificada rapidamente e que todas as providências cabíveis já foram adotadas. Embora a ultrassonografia seja considerada um exame não invasivo e de baixo risco, o município ressaltou que a realização do procedimento por alguém sem habilitação legal configura grave violação ética e jurídica, colocando em risco a segurança dos pacientes.

Como medida preventiva, a Prefeitura de Cananéia informou que todos os pacientes atendidos na terça-feira (6) pelo falso médico estão sendo reconvocados para repetir os exames na próxima terça-feira, dia 13 de janeiro.

“A Prefeitura de Cananéia lamenta o ocorrido, apresenta desculpas à população e informa que foi instaurada sindicância administrativa, em conjunto com a empresa gestora, para apurar responsabilidades, identificar falhas e fortalecer os mecanismos de controle, prevenção e governança”, conclui a nota.